A pandemia e suas “revelações óbvias”


A pandemia e suas revelações óbvias

(texto lido na mesa-redonda no Congresso Acadêmico da UNIFESP – 14/07)

No dia 29 de fevereiro recebi minha primeira máscara. Naquele final de tarde, no aeroporto de Tindouf (Argélia), deparei-me com uma equipe de profissionais da saúde que media a temperatura dos corpos, distribuía álcool gel e máscaras. Toda aquela movimentação me pareceu um excesso. Mas a estranheza inicial foi transformada. Agora, são cenas banais de um cotidiano subvertido pela pandemia: máscara e álcool gel foram incorporados à minha vida e ao meu corpo como próteses.

Cheguei ao Brasil em 06 de março. No dia 13 estávamos em isolamento social. A cena no aeroporto de Tindouf seria o prenúncio de que os sentidos que organizam nossas sociabilidades iriam colapsar.

A experiência nos campos de refugiados do povo saharaui (Tindouf) e a pandemia deslocaram-me para lugares que ainda não sei nomear.  Certamente, como minhas colegas que estão nessa mesa-redonda virtual, temos feito um esforço diário para tentar interpretar e conferir sentidos aos impactos provocados pela pandemia.  Conceitos como biopoder, necropoder, vidas sacrificáveis, vulnerabilidade,  interdependências dos corpos, corpos abjetos,  foram e são acionados largamente para nos ajudar  nesse esforço interpretativo.

Da extensão produção textual que tenho lido, encontro pontos de unidade:

1º.) A pandemia revelou, em tons dramáticos, as estruturas das desigualdades sociais;

2º.) No âmbito das “revelações óbvias” está a impossibilidade de pensarmos os corpos como entidades substantivas, fechadas em si mesmo. Meu corpo está irremediavelmente condenado ao teu corpo.

3º.) Os textos sobre pandemia/raça, pandemia/sexualidade, pandemia/gênero, pandemia/refugiados apontam para o aprofundamento das desigualdades em populações que são, historicamente,  precarizadas e desumanizadas. São as que estão fora das biopolíticas. Mais do que “população de risco”, nota-se que as populações em risco, aqueles que têm as vidas ameaçadas em contextos não pandêmicos, são as que têm sofrido com mais dramaticidade os efeitos da pandemia. Para estas populações, cabem as necropolíticas.

As distribuições diferenciais de acesso às políticas públicas e aos bens simbólicos valorizados socialmente, parecem apontar que o Estado não pode ser lido como um lugar de promoção  da vida (do “fazer viver”)  ou, exclusivamente, do deixar  morrer, pensando aqui com Foucault.  A necrobiopolitica (conceito que proponho para interpretar a governabilidade em tempos neoliberais bárbaros) se fundamenta em políticas racionais de gestão das vidas que podem demandar (e receber) o pertencimento ao Estado-nação e as que devem desaparecer. Então, dar a vida e promover a morte são termos indissociáveis quando nos movemos  no âmbito do Estado. Mas esta proposição analítica não responde o que faz  do humano, humano ou o que desumaniza o humano.

Como uma vida humana chega a constituir-se como despossuída de valor, transformando-se em vida matável?  Esta pergunta me persegue. É um tipo de fantasma  teórico. A experiência colonial, presente e passada, faz com que ela não morra. Por que algumas vidas importam mais que outras? Por quem choramos? Por quem fazemos o luto?

Eu fazia estas perguntas (com inúmeras variações), enquanto estava nos campos de refugiados no saara argelino. Diante das condições climáticas e materiais que me informavam da impossibilidade da vida ali, eu encontrei uma sociedade que me dizia: “apesar de tudo, a vida importa. Seguiremos vivendo”.

Hoje, portanto, gostaria de compartilhar com vocês esta experiência através do  curta que produzi chamado “Saharaui: memória e exílio”. Advirto, antecipadamente, que não é nada profissional. Pouco sei das técnicas da linguagem visual, dinâmica.  É um esforço humilde para dizer que as vidas dos refugiados saharaauis, que parecem condenadas à morte pela diplomacia internacional, importam. (o curto estará disponível aqui em breve)


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