Por que Lula? Nem caserna, nem casa-grande


Os dias que se seguiram à eleição de Bolsonaro foram de esforço interpretativo, comparável ao de alguém que está diante de um imenso quebra-cabeças e tenta fazer os encaixes, mas faltavam peças. Depois, eu percebi que não estava sozinha. Ao longo desses quatro anos, foram publicadas centenas de livros, artigos que tentavam responder: como explicar a ascensão e eleição de Bolsonaro? Não se tratava de racionalizar o real, mas de interpretá-lo.

Desconheço, na história do pensamento social brasileiro, um momento de tamanha produção intelectual. Ainda estamos tentando reler o Brasil e propor novas ferramentas analíticas que se contraponham às teses clássicas do “homem cordial” e da “democracia racial”. Talvez, na década 1930, tenha acontecido algo próximo ao que estamos vivendo. Diferentes interpretações foram oferecidas para a relação entre Bolsonaro e a herança política/cultural, mas todas tentam analisar sua ascensão como um fenômeno anterior e exterior à sua própria existência.

Observei que é possível sistematizar essa considerável produção textual em dois blocos. Um que aponta a ditadura civil-militar como o referente das continuidades. A caserna voltou ao poder e trouxe consigo os monstros que habitaram o Estado brasileiro ao longo dos 21 anos da Ditadura.

O segundo dedica-se a estabelecer conexões entre Bolsonaro e as heranças escravocratas. Não se tratava, nessa perspectiva, de um retorno da caserna, mas de reconhecer a presença continuada nas relações sociais e políticas do senhor escravocrata e seus capitães do mato (leia-se: ministros, secretários). A caserna faz parte da estrutura da Casa-Grande.

(texo na íntegra, Le Monde Diplomatique)

https://diplomatique.org.br/por-que-lula-nem-caserna-nem-casa-grande/


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