O futebol, o negro excepcional e o campo de extermínio europeu


O futebol, o negro excepcional e o campo de extermínio europeu – Berenice Bento

(Publicado na CULT, em 28/07/2026)

Em meio às polêmicas provocadas por declarações de autoridades de que a seleção francesa padecia da ausência do pedigree da verdadeira e pura identidade francesa, a Netflix estreou o filme 23.000 Vidas (do diretor Markus Goller). O drama, baseado em fatos reais, acompanha um grupo de jovens que, indignado com as mortes por afogamento de refugiados que tentam chegar à Europa pelo Mar Mediterrâneo, decide criar uma missão de resgate humanitário. Entre 2016 e 2017, o navio Iuventa, cuja tripulação era formada por voluntários, realizou operações de busca e salvamento que ajudaram a resgatar cerca de 23 mil pessoas.

Enquanto o mundo assistia ao espetáculo do futebol de Lamine Yamal, Mbappé e Nico Williams, e às declarações racistas de políticos, o filme nos apresenta uma pista para entendermos o que está acontecendo agora na Europa. A mãe de Nico Williams pode ter sido uma das 23 mil pessoas salvas.

A ONG responsável pelo navio Iuventa foi processada por “tráfico humano” e interrompeu suas atividades. O filme não apresenta, no entanto, a dimensão quase inimaginável do que acontece no Mediterrâneo nem as dezenas de coletivos civis que entram diariamente no mar para realizar resgates, um trabalho que deveria ser desempenhado pelos Estados europeus. A primeira pergunta é inevitável: por que essas pessoas se arriscam tanto? Por que não tentam entrar pelas vias legais? Porque a Europa estava fechada. Pessoas oriundas da África Subsaariana não conseguem vistos. É comum pesquisadores africanos deixarem de participar de eventos acadêmicos na Europa porque não conseguem autorização para entrar.

Entre 2022 e 2023 estive em Lampedusa, Lesbos e outros fronts da guerra unilateral declarada pela Europa contra os ex-colonizados. No meu próximo livro, Restos: Europa contra os ex-colonizados (Editora Cult), discuto a impossibilidade de nomear o que está acontecendo como “crise humanitária”. Trata-se de uma política altamente planejada e sofisticada, que inclui a expansão das fronteiras, o financiamento de milícias para impedir que os ex-colonizados cheguem à Europa e acordos ilegais com Líbia, Tunísia, Marrocos e Senegal, que enchem as contas bancárias das elites políticas desses países. O objetivo é dito e repetido: não queremos africanos na Europa.

Ao longo da minha etnografia, trabalhei como voluntária em um navio que realiza resgates no Mediterrâneo, conheci coletivos que lutam pelo direito ao asilo e pela permanência em solo europeu e trabalhei na cozinha de uma ONG que prepara refeições para um campo de refugiados em Lesbos. O Estado grego não oferece sequer a quantidade mínima de calorias necessária para a sobrevivência. Daí a iniciativa de cozinhar para salvar vidas.

Estive em Lampedusa e vi como os civilizados europeus tratam os imigrantes: como lixo. O lugar em que ficam “hospedados” talvez seja a imagem mais próxima de uma senzala. Não é falta de recursos. Não é uma crise humanitária. São crimes sistemáticos contra a humanidade, praticados com método e planejamento, dirigidos contra pessoas negras africanas. Engana-se quem afirma que o Mediterrâneo é a “maior cova ao céu aberto do mundo”. É, de fato, um dos maiores campos de extermínio da história da humanidade. Onde está a eficiência? Na ausência dos corpos. Na ausência da fumaça. Na ausência das provas e dos vestígios.

Em determinado momento do filme, a tripulação do navio entra em desespero porque não consegue chegar a uma embarcação com dezenas de pessoas africanas em situação desesperadora. Ligam para a Frontex e para as guardas costeiras de Malta e da Itália. Nada. Horas depois, conseguem alcançar a embarcação. Um bote vazio. Ninguém sobreviveu.

Alguns corpos chegam às praias das ilhas mediterrâneas. Nos dias em que estive em Lampedusa, corpos e pertences pessoais (mochilas, sapatos, chupetas, casacos…) invadiam as praias.

Quem consegue atravessar a Europa Fortaleza terá de enfrentar outras batalhas para permanecer vivo. O desejo de expulsão dos ex-colonizados aparece na fala de políticos, nas agressões físicas e verbais contra pessoas negras e nos programas de partidos políticos.

Em determinado momento, o protagonista do filme faz um diagnóstico preciso: isso é uma guerra contra os imigrantes. Deixar morrer no deserto ou em naufrágios são as técnicas mais comumente utilizadas para impedir a entrada. Outra frente dessa guerra manifesta-se na criminalização impiedosa de qualquer coletivo da sociedade civil europeia que salva vidas. Enquanto eu estava em Lampedusa, o barco Louise Michel, depois de concluir o desembarque de mais de 200 pessoas africanas que morreriam nas proximidades da ilha, foi apreendido. A acusação: tráfico de pessoas.

Soubemos, como uma nota de rodapé em meio às festividades da Copa, que a mãe de Nico Williams percorreu o caminho da morte até conseguir entrar na Europa. Saiu de Gana, foi presa e torturada por milícias na Líbia (financiadas pela Europa). O gesto do filho, entregando-lhe a medalha de ouro, permitiu-nos conhecer uma pequena faísca de sua história.

Há alguns dias assisti a um documentário sobre imigração. Os corpos de uma mulher e de seu filho foram encontrados no deserto por repórteres. As milícias abandonam, sem água e sem comida, dezenas de africanos que tentam chegar à Europa no Saara. Uma parte considerável perde a vida. Talvez, por muito pouco, a mãe de Nico Williams não tenha tido o mesmo destino.

Acredito, no entanto, que essa cena não perturbe o sono das autoridades europeias. Um dos meus colegas do navio em que trabalhei como voluntária contou que, durante um resgate, ajudou uma mulher a dar à luz em uma embarcação prestes a afundar. Mãe e filho sobreviveram. Talvez esse seja o verdadeiro escândalo. Toda política de extermínio teme o nascimento. A criança que atravessou o Mediterrâneo poderá nunca jogar futebol. Poderá tornar-se cientista, escritora, professora, médica ou simplesmente viver uma vida comum. Pouco importa. O que a Europa tenta impedir não é o surgimento de um novo Yamal. É que existam outros futuros possíveis para aqueles que ela insiste em tratar como descartáveis, reeditando as práticas do seu passado colonial e escravagista.

Berenice Bento é socióloga e escritora


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