O Parque dos Horrores no Natal Shopping


Por Berenice Bento

27/10/2016

(http://www.bichanatalense.com.br/2016/10/o-parque-dos-horrores-no-natal-shopping.html)

Poucas vezes eu vi um espaço mais violento que o parque de diversões preparado pelo Natal Shopping para o Dia das Crianças. Explico.  Imagine que você é uma menina e que gosta de brincar em um parquinho ou de carrinho. Imagine que você é um menino e gosta de ficar com sua mãe ajudando-a a cortar as verduras.

 

No dia 12 de outubro, sua família se reuni e diz: vamos comemorar o Dia das Crianças no shopping que montou uma praça de brinquedos. Ao chegar, você descobre que há brinquedos censurados para seu gênero. Se você é uma menina não poderá usufruir dos brinquedos ditos masculinos. Para que não haja qualquer tentativa de se burlar tal censura, os organizadores desta festa do terror, fizeram um muro para segregar os gêneros. Em pleno século XXI ainda temos que conviver com espaços segregacionistas! Eu já vi parque de diversão onde as marcas de gênero estão espalhados por todos dos lados, mas nunca tinha visto um muro separando-os. E como uma piada de mau gosto com nossas inteligências, lemos no lado exclusiva para as meninas, em letras gigantes, com o fundo rosa: “VOCÊ PODE SER TUDO QUE QUISER”,  ao lado desta frase, aparece um nome gigante, Barbie. Escárnio maior com nossas inteligências não poderia. Você pode ser tudo que você quiser desde que você escolha ser o que decidi ser o melhor para você.

 

O deboche continua. Do lado dos meninos: “DESAFIE SEUS LIMITES”. E aqui a ficção de liberdade continue. Embora seja uma frase que reitera e ao reiterar produz a noção hegemônica de masculinidade (não ter medo, ser forte) ela também é um escárnio com nosso senso de observação.  A ousadia ali só é permitida dentro dos parâmetros que se permite. Eu sou menino e quero ousar tentar usar um salto alto, posso?

 

Este seria a primeira dimensão do caráter violento desta exposição.  Vamos ao segundo. Todos nós sabemos que o Brasil aparece em todas as estatísticas como um dos países mais violentos e perigosos para uma mulher viver. É um dos países onde mais se mata mulheres em todo o mundo. E por que isso acontece? Seria por falta de leis que criminalizam os assassinos? Seria por impunidade? Não. O Brasil é um dos países que têm uma legislação criminal potente, principalmente, depois da aprovação da lei do feminicídio.

 

Mesmo assim, a violência de gênero contra as mulheres não diminui. E por quê? Estranhamente, a resposta está ali naquele parquinho ingênuo do Natal Shopping. Vejam os brinquedos das meninas e dos meninos. 

 

1 – Das cores: Rosa, muito rosa na parte destinada às meninas. A cor da passividade, da emoção. Para os meninos, cores escuras (azul, preto, laranja), para enfatizar a atividade e agressividade.

 

2- Construção de espaço. Para os meninos, brinquedos que jogam os corpos para o espaço público. Os parques, os carros, os jogos preparam os corpos para a competição, para serem superiores. Para as meninas, ênfase no cuidado da beleza, da casa, do corpo. Bonecas, panelas (muitas panelas, uma cozinha completa!), a exposição das barbies com corpos de “beleza” inatingível e que tanto sofrimento causa às crianças, principalmente às crianças negras. Ao contrário dos jogos e brinquedos dos meninos, vemos aqui uma homenagem à mulher como cuidadora, mãe. E assim, dois mundos completamente diferentes nos são apresentados: o masculino e o feminino. Mas não é “apenas” diferente. É uma diferença hierarquizada onde o masculino é produzido para o poder público e o feminino para ser dominado.

 

3- A função dos brinquedos. Ali, diante de nós, este espaço segregacional e violento, nos apresentava sem nenhuma timidez o projeto hegemônico para os gêneros. A função daqueles. Aos homens, a rua, o poder, a ousadia. Às mulheres, a casa, o privado, a falta de ousadia. Há muito tempo os/as pedadogos/as já sabem do poder dos brinquedos em produzir subjetividade, desejo e sofrimento. Ao dar uma boneca, uma cozinha para uma menina, o que está fazendo não é antecipando ao desejo da natureza, mas produzindo gênero.  E assim, o projeto social (transfigurado de “natureza”) fica claro: produzir corpos a suposta diferença sexual para exaltar a heterossexualidade como única sexualidade possível.

 

Na produção hierárquica e assimétrica dos gêneros, será o feminino o lugar do matável, penetrável. E eu, como homem, para ter garantido a minha superioridade nesta estrutura, preciso deixar claro que quem tem o poder sou eu. Este parquinho do terror do Natal Shopping soma-se ao projeto social mais amplo que autoriza homens a matarem as mulheres e que tem no heteroterrorismo a base de funcionamento. Imagine se um menino pedisse ao pai ou mãe para brincar de boneca, que pedisse para pular o muro? Brincar de boneca não tem nenhuma ligação com a sexualidade do menino, mas ele não ousa dizer do seu desejo porque sabe que isso poderá desencadear a fúria dos país e poderia ser insultado de mulherzinha pelos amigos. Quem que ser mulherzinha? A produção dos gêneros e da sexualidade dita “normal/natural” é marcada pelo medo, pelo terror de ser rejeitado.

 

Portanto, não adiante aprovarmos leis vanguardistas enquanto o projeto social para os gêneros ainda reservar ao feminino o local do frágil. Enquanto não houver iniciativas que quebram com esta estrutura binária e violenta. Parece-me que é este o sentido da iniciativa do Escritório de Proteção de Direitos da Infância de Iquique, no norte do Chile, que criou um seminário de “desprincesamento”, cujo principal objetivo é quebrar padrões de gênero, através de ferramentas que façam as meninas livres de preconceitos, empoderadas e com a convicção de que podem mudar o mundo, e que não há um único destino para suas vidas, tampouco que a felicidade está em ter um homem protetor (o mesmo que pode vir a matá-la) ao seu lado. Entre as atividades que são desenvolvidas na Casa de Cultura da cidade, há debates, aulas de defesa pessoal, cantorias e atividades manuais. O objetivo principal é fazer com que as meninas reflitam sobre o conceito de ser mulher, beleza e felicidade, sem que haja um “príncipe”.  Esta é uma importante iniciativa para contribuir na mudança das relações violentas de gênero.

 

Não precisamos de escola de princesa. Basta de brinquedos que funcionam como tecnologias que produzem corpos violentos e corpos passivos.

 

 


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