Nêgo Bispo: um pensador necessário


Nêgo Bispo: um pensador necessário

Berenice Bento (publicado na CULT, em 27 de janeiro)

 

Talvez aos meus 15 anos eu tenha lido: “[na sociedade comunista o indivíduo] poderá caçar pela manhã, pescar à tarde, criar animais ao anoitecer, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico.” Mais do que a teoria do valor em Marx, o que me capturou, inicialmente, foram as imagens derivadas dessa promessa de um mundo outro. Um mundo sem trabalho. Pensei: essa promessa terrena me interessa. O preço para entrar nesse paraíso? Fazer luta política revolucionária. Engajei-me na busca da materialização do sonho comunista e segui atenta a possíveis promessas já realizadas.

Décadas depois, quando encontrei o denso e complexo pensamento do quilombola Nêgo Bispo, eu já tinha esquecido a força das imagens iniciais do mundo comunista. Por sua voz, voltei a encontrá-las. Agora, não mais como uma promessa, mas da boca de um homem que, deitado em sua rede, me apresentou outros mundos, fora da miséria existencial colonial e capitalista. Nêgo Bispo assumia completamente seu lugar de “fora”. Para Malcom Ferdinand, as pessoas negras foram construídas pela ontologia europeia como os de fora. Em Nêgo Bispo, o fora (ou o abjeto, como discuto no meu livro Abjeção: a construção histórica do racismo) quer ficar “fora” mesmo, não encontra nenhuma sedução em fazer uma luta de integração ou assimilação ao modo de vida existencial colonial (e aqui inclui-se, principalmente, a relação com o mundo produtivo como base material da existência).

Todo o pensamento e a ação do pensador quilombola estão voltados para a politização do abjeto, mas há contraforças que reiteram a abjeção, qualificando-o como “irracional”, “mítico”, um passo para caracterização seguinte: enfim, um psicótico. Posso vê-lo em sua rede, escutando essas críticas e gargalhando… “ele é humano”, talvez argumentasse, e logo em seguida retomaria o fio da meada da prosa anterior. Nêgo Bispo não é um remanescente dos quilombolas. Não é uma sobrevivência. Seu pensamento expressa a resistência encarnada.

Um dos pontos centrais de seu pensamento é a relação entre território e identidade. Começo pela questão do território.

Território não pertence a ninguém, nós pertencemos a ele. É uma biointeração.”
(Nêgo Bispo)

A luta quilombola contra a colonização se aproxima, em diversos níveis, da luta do povo palestino contra o colonialismo sionista. O que há de mais material do que a luta em defesa do território, pela garantia da permanência no lugar onde se conhecem as oliveiras, os movimentos do rio? O povo palestino aciona a memória e a ancestralidade como armas políticas de autodefesa contra a guerra demográfica sionista. Eles sempre estiveram lá, ao contrário dos colonialistas sionistas. As músicas, as comidas, um modo de vida que encontra conforto na horizontalidade das construções e que, como entre os quilombolas, tem o quintal como lugar fundamental de produção de alimento e de gente. É nesse espaço que os ensinamentos da cultura são transmitidos às crianças.

Uma cena correu o mundo: uma mulher palestina idosa abraça o tronco de uma velha oliveira como se fosse um membro de sua família. Os soldados sionistas teriam de matá-la antes de destruí-la. Nêgo Bispo, possivelmente, me corrigiria e diria: “não é ‘como se fosse’; a oliveira faz parte dessa família”. Como ter a propriedade privada de um membro da comunidade? A obsessão sionista em destruir paisagens palestinas está em linha de continuidade com as empresas do agronegócio que destroem modos de existência que dependem da natureza e roubam terras dos povos originários e dos quilombolas. Foi o que aconteceu no Parque Nacional da Serra da Capivara, quando o governo concedeu licença para uma mineradora dentro do território quilombola, sem cumprir os protocolos nacionais e internacionais de consulta prévia, fato amplamente denunciado por Nêgo Bispo.

Não é possível negociar nada com o agronegócio, com a permissão do Estado, uma forma de pensar a existência que necessita da morte de múltiplas comunidades de seres viventes. Nêgo Bispo lembra que quando essas empresas chegaram nas comunidades e “nos disseram para não consumir boa parte dos frutos que costumávamos consumir. Tudo aquilo que não era mercadoria era ruim, só que a mercadoria prestava (…). Nosso povo tinha vergonha de vender melancia, manga, caju, pequi ou umbu. (…) Caju, parte para o consumo, outra para os passarinhos e uma terceira parte (os que caíam no chão) para os porcos”.

As aproximações entre o colonialismo sionista e a lógica da plantation que segue dominando o Estado brasileiro poderiam seguir. Não se trata exclusivamente de uma questão econômica, mas essa dimensão comparece com força no pensamento de Nêgo Bispo, articulada à cosmovisão quilombola. A binaridade oposicional “geral e específico” é um método estranho para um pensador que nunca tira os dois pés da roça e não deixa de olhar para o céu.

Nas comunidades “afroconfluentes”, conceito de Nêgo Bispo, a agricultura era praticada com a técnica triangular, em oposição ao modo linear das monoculturas (aliás, “linear” talvez seja outro termo para pensamento humano “sintético”).

O movimento do pensamento de Nêgo Bispo parte do vivido e é do lugar da experiência, elaborada coletivamente (por isso orgânico e não sintético), que ele afirma não ter interesse nas lutas políticas em torno do Estado, naquelas que se organizam “desejando o desejo do Estado”. As leis e normas do Estado existem para acabar com os quilombolas, com o mundo. Portanto, a tarefa é acabar com o Estado, não como uma promessa, mas agora, com práticas outras.

Seu pensamento se move por contraste. Ao mesmo tempo que critica a arquitetura, a agricultura e o Estado dos humanos, apresenta-nos o modo de vida quilombola. Nada pode ser mais assustador para o poder do que alguém que não reconhece o poder, que até ri de quem diz que pode, numa tentativa inútil de silenciar os que estão fora.

Ele se pergunta como os humanos conseguiram a proeza de discutir ecologia sem discutir arquitetura. Um tipo de ilusão só possível em mentes racionais orientadas para a obtenção máxima de lucro — uma racionalidade que orienta as políticas públicas de construção de casas populares, que não levam em consideração os saberes e as necessidades das comunidades e que, portanto, reproduzem a mesma relação colonial que se supõe superada.

A destruição/preservação do meio ambiente é feita pelos humanos racionais como se a natureza fosse um ente apartado e hierarquicamente inferior, passivamente pronto para ser dominado. As agendas de ONGs ambientalistas estabelecidas não vinculam a destruição aos modos de existência (como englobantes dos modos de produção) que permitiram e permitem essa devastação. Nêgo Bispo expõe seu estranhamento quilombola:

“Nunca vi uma campanha de captação de água para os animais silvestres na Caatinga. As ONGs não fazem campanha para arrecadar alimentos para os animais silvestres nos períodos de estiagem no Nordeste. Só lembram dos seres humanos, do gado e dos animais domésticos.”

O sentido da vida aqui e a necessidade de cuidado ampliam-se a um ponto que explode o que os humanos definem como vida a ser protegida, porque “o que é muito mais interessante é pensar como vamos cuidar de outra vida quando ela está precisando de cuidado” (Nêgo Bispo).

É interessante como uma das teses de Malcom Ferdinand (Uma ecologia decolonial), com destaque para sua crítica radical ao antropoceno, dialoga com o pensamento de Nêgo Bispo. Para Ferdinand, os ambientalistas estabelecidos conseguem a proeza de discutir as questões ambientais sem arranhar a origem dessa relação predatória com o mundo: o colonialismo. Preservação do mundo e luta contra o colonialismo tornam-se termos indissociáveis, tanto para o quilombola quanto para o pesquisador martinicano.

Identidade e suas confluências

Não é preciso ser versado em teoria psicanalítica lacaniana para compreender a centralidade que a linguagem ocupa em nossas vidas mentais e nas disputas políticas. O horror do Estado colonial israelense está na palavra abjetada “PALESTINA”, interditada de ser pronunciada. Aos berros e tiros do colonizador sionista, o povo palestino reafirma sua existência com músicas, lutas políticas, comidas, canções. Responde com vida. E cria e reafirma sua existência também pela linguagem: palestinidade, Palestina, sumudnakba.

Nêgo Bispo sabe que “as ferramentas do mestre jamais desmontarão a casa do mestre” (Audre Lorde). Sabe que o colonizador/colonizado tentará fazer uma guerra linguística, falando palavras em alemão para impressionar e relembrar que detém o poder. Ele resolveu entrar na “guerra de denominações”, isto é, no jogo de contrariar para enfraquecer as palavras coloniais. O processo de apagamento de uma memória coletiva (portanto, de uma identidade), para se efetivar, começa pelas denominações permitidas e proibidas.

Um outro mundo imaginário e simbólico é tecido por Nêgo Bispo. Daí a proliferação de saberes (ou conceitos) que vemos brotar em suas falas. Talvez ainda não se tenha compreendido totalmente o desejo de Nêgo Bispo. Ele não queria entrar, ser domesticado. Ele estava fora; a comunidade quilombola historicamente esteve fora, e assim ele queria permanecer. Por isso, seu posicionalmente coerente não como anti-colonial ou decolonial ou pós-colonial, mas contracolonial.

O que é confluência conceito (nem sei se Nêgo Bispo gostaria que seu pensamento fosse considerado um “corpus conceitual”, mas, pela minha própria precariedade humana, não vejo outra possibilidade) que atravessa suas falas? É a abertura para o outro, porque “quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente; a gente passa a ser a gente e outro ente — a gente rende”. No encontro com o outro, algo muda em nós, mas essa mudança nunca é total, completa. Algo do velho segue nos habitando. Porque “o rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio; ele se fortalece”.

Nos conceitos e imagens propostos pelo pensador quilombola, encontro pontos fortes de diálogo com uma longa bibliografia sobre exílio, eu/outro/, alteridade/altericídio, relacionalidade ética. É possível que uma pessoa palestina negue de onde veio, que, por motivações múltiplas, negue sua língua, seus costumes, sua história? Sim, é possível, mas o desejo consciente terá de lidar com a dimensão inconsciente. Parece-me, no entanto, que a aposta da confluência é na coabitação e em como ela nos desloca e nos posiciona em movimentos permanentes de abertura, mas reconhecer que algo permanece é essencialismo?

Na cosmologia do pensador quilombola, o universal desaparece e emergem aldeias, quilombos e terreiros. Não há qualquer sedução pela suposta “globalização”, outro mecanismo colonial para unificar o diverso e seguir impondo a universalidade como modo único de vinculação com o mundo.

O ser que vive em contextos de confluência não se confunde com o indivíduo dos humanos, marcado pela unicidade. Quando um quilombola fala “(…) indivíduo, estamos falando de unidade, estamos dizendo ‘um’, mas esse ‘um’ é parte do todo, do universo. (…) Percebemos uma diferença entre ser ‘um’ e ser único, enquanto, para eles, o ‘um’ e o único são a mesma coisa. Quando dizemos ‘globo’, estamos englobando e, ao mesmo tempo, reconhecendo as individualidades que existem dentro do globo” (Nêgo Bispo). Como é possível que um pensador voltado para a abertura ao outro, em que a diferença comparece como constitutiva da unidade, seja lido como essencialista?

Nêgo Bispo contemporâneo e necessário

No último curso que ministrei na pós-graduação em Teoria Sociológica Contemporânea, inseri textos e entrevistas de Nêgo Bispo na bibliografia. Ao final, um estudante francês me procurou para se despedir e agradecer pelo curso, principalmente pela oportunidade de ter conhecido Nêgo Bispo, algo impensável nas universidades demasiadamente “humanas” francesas. Em alusão ao texto de Giorgio Agamben O que é contemporâneo?, ele me disse: “Nêgo Bispo é o mais contemporâneo de tudo o que lemos”, recuperando um importante debate que tivemos em sala sobre os sentidos do contemporâneo.

Gostaria de ter conversado pessoalmente com esse quilombola, de dizê-lo que sua existência é necessária (como ele gostaria que fosse) e não útil, porque a utilidade é da ordem do descartável. Gostaria de tê-lo agradecido por ter me nutrido com as imagens que suas palavras me provocam e, quem sabe, me ajudado a tornar-me menos humana


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